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domingo, 28 de agosto de 2016

A IMPORTÂNCIA DO CORDEL NA SALA DE AULA

(*) Por José Romero Araújo Cardoso

Veículo de fabuloso fomento à identidade regional, o cordel tem nas camadas populares seus mais constantes e fiéis consumidores, sendo através dos tempos valorizado e cultuado como a verdadeira e autêntica literatura nordestina, o livro de bolso do povo da região. 


Há ênfase a diversos clássicos da Literatura de Cordel, os quais são estudados com seriedade em importantes academias espalhadas mundo a fora, não obstante ser recente o estudo desse gênero em Universidade Brasileiras. 

Entre esses, destacam-se as produções de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, José Camelo de Melo, José Pacheco, João Ferreira de Lima, entre outros, inspiradores do Movimento Armorial, criado pela genialidade ímpar de Ariano Suassuna. 

A importância de estudar o cordel em sala de aula está sendo enfatizado em projeto ousado e inovador, por título Acorda Cordel, coordenado pelo poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Viana, nascido aos 18 de setembro de 1967, nos sertões adustos de Quixeramobim, terra que também viu nascer o beato Antônio Conselheiro. 

Intitulado Acorda Cordel na Sala de Aula, folheto de número 70 da Coleção Queima-Bucha, publicado em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, em janeiro de 2006, esse cordel traz ilustração de capa do próprio autor. 

Vale ressaltar que Arievaldo Viana foi eleito no ano de 2000, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira de número 40, cujo patrono é o poeta popular João Melchíades Ferreira. 

Arievaldo Viana desenvolve sua verve extraordinária alertando sobre a necessidade de primar por normas ortográficas e gramaticais corretas, tendo em vista que o cordel, quando usado para a alfabetização, principalmente de jovens e adultos, deve respeitar a linguagem corrente, sem erros grosseiros que atrapalhem os objetivos propostos em seu projeto de fomento ao processo ensino-aprendizagem.

O autor sintetiza a influência do cordel em sua vida, desde a infância, quando se verificou o contato do mesmo com grandes nomes da literatura regional, cujas histórias eram lidos pela avó com o frenético entusiasmo de quem se rende aos encantos das bravuras e feitos épicos narrados primorosamente em folhetos de diversos mestres do passado. 

Arievaldo Viana confessa, sem titubear, que os versos geniais decorados de diversos cordéis, tiveram influência mais incisiva que os livros nos quais estudou. O cordel tinha decisiva importância na formação do povo nordestino em razão que o advento do rádio e da televisão era pouco enfático. A mídia ainda não havia contaminado efetivamente o imaginário do povo nordestino. 

A fim de que recuperemos nossa identidade vilipendiada pelos rumos da globalização, o autor frisa a importância de que cada biblioteca estruture sua cordelteca como fonte de saber. 

Aviso singular quanto à utilidade do cordel, está contido na necessidade da observância da métrica, rima e oração que cada folheto deve conter, visto que, na brilhante advertência do autor, deve existir seqüência lógica para que o estudo seja contemplado de êxitos. 

A influência da avó é destacada intensamente no folheto, como forma de exaltar a importância do cordel na sala de aula, pois conforme o autor, esta teria sido sua mais completa fonte de inspiração para que se desabrochasse o amor pelo gênero mais identificador da verdadeira cultura nordestina.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.


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sábado, 27 de agosto de 2016

NAS TRILHAS DO CANGAÇO: HOJE ACONTECEU A MISSA DE 90 ANOS DA CHACINA DO GILO - www.joaodesousalima.blogspot.com

 Por João de Sousa Lima

Hoje, dia 27 de agosto de 2016 foi celebrado a missa marcando 90 anos da chacina da família Gilo.




O Grupo Florestano de Estudos do Cangaço - GFEC, organizou a Missa de 90 anos da chacina da família Gilo.




Os Escritores e Pesquisadores João de Sousa Lima, Marcos de Carmelita, Cristiano Ferraz, Manuel  Serafim, Lourinaldo Teles, Betinho de Numeriano, Giovane Macário, Ana Amélia, família Gilo e convidados ouviram o Padre italiano Giovanni Malacrida, da paróquia de Floresta, realizar a Missa de 90 anos da chacina da família Gilo (completa 90 anos amanhã, dia 28). Lampião atacou a fazendo dos Gilos no dia 28 de agosto de 1926, matando Gilo Donato do Nascimento, Manoel Gilo do Nascimento, Evaristo Gilo, Joaquim Gilo, Ernesto Joaquim da Silva, José Pedro de Barros, Henrique Joaquim de Souza, João Gabriel de Barros, Francisco Damião de Souza, Pedro Alexandre  Gonçalves Torres, Alexandre Ciríaco, Permínio Alves dos Santos e o soldado João Ferreira de Paula.




O único Gilo que sobreviveu foi o garoto Cassimiro Gilo do nascimento, de 15 anos de idade, que no momento não estava na casa.





O Pe. Giovanni em sua fala emocionada lamentou as mortes e pediu paz aos corações dos homens para que só a paz reinasse entre seus semelhantes.


O altar improvisado, com tijolos de barro vermelho segurando a branca toalha que açoitava ao vento forte da tarde, lembrava o vermelho do sangue derramado, sangue dos inocentes que banhou o solo sagrado, há 90 anos vidas ceifadas marcaram aquele chão e as dores da família Gilo se perpetuou em seus familiares, porém, ouvindo Giovanni, sacerdote desse dia, dizendo; A PAZ E O PERDÃO DEVE REINAR ENTRE OS HOMENS.... que reine mesmo e que a vingança não nos persiga.....mais que não esqueçamos nunca da história que tanto flagelo trouxe ao meu amado sertão nordestino, em idos anos que o tempo não apaga.

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OLHAR E PALAVRA

*Rangel Alves da Costa

Outro dia, num pequeno texto, expressei a seguinte reflexão: O silêncio deveria ser a voz humana! Mas agora me pergunto o que seria do ser humano sem a palavra, sem o poder verbal de expressão, sem a oralidade na comunicação.

Contudo, no instante seguinte eu já havia obtido uma resposta aceitável para tal indagação. Numa síntese, seria o seguinte: Bastaria o olhar como palavra! Então me surgiu outro questionamento: Como conseguiria o olhar expressar tudo aquilo que é tão próprio da palavra.

Então, ante verdadeiros questionamentos filosóficos, subi à montanha do pensamento e, lá no cume, igualmente O Pensador de Rodin, fui longamente meditando até chegar às seguintes conclusões:

Palavra e olhar são formas de expressão que se aproximam, mas, muito mais, se distanciam. A palavra presencialmente falada possui um alcance menor. Mesmo num grito, o seu alcance não vai além do que ecoa. E já distorcida da sua força real de expressão.

O olhar, mesmo face a face com o interlocutor, possui uma profundidade indescritível. Não é a mera visão adiante, mas o além que alcança, adentrando na alma e obtendo respostas que ninguém imaginaria possíveis sem palavras.

Ademais, o olhar, sempre além do eco longínquo do que resta do eco, alcança distâncias, rompe horizontes, vai aos espaços, obtendo respostas a cada instante, incessantemente, e de modo visível ou imaginado, e não apenas pela frieza do dito.

Enquanto a palavra diz, o olhar testemunha. A palavra pode mentir, omitir, distorcer, criar versões para o mesmo fato presenciado, mas o olhar a isto não se presta.


O olhar, em verdade, é muito mais verdadeiro que o dono dos olhos. O avistado nunca chega como mentira. Pode haver uma distorção da realidade, quando se imagina enxergar uma coisa quando se está diante de outra, mas não porque assim deseja. Já a palavra, dependendo daquele que a pronuncia, pode distorcer a realidade do fato acontecido no mesmo instante.

Aliás, uma das maiores mentiras do ser humano, e tão próprias das palavras, consiste na expressão “eu não vi nada” ou “eu não vi nada demais”. Ora, viu sim. E viu tudo. Se estava presente no acontecido, então não há como dizer que viu pela metade ou nada viu. Quando a palavra delimita o que foi enxergado, nada mais faz que uma escolha de situações que lhe sejam convenientes.

E tem gente até que vê demais perante fatos presenciados. A mentira nasce assim, a partir da criação de fatos e situações inexistentes. A pessoa encontra um gato e mais adiante repassa a outro que se deparou com um tigre. O outro diz mais adiante que a cidade está sendo invadida por perigosos animais da floresta. E num instante alguém já foi mordido, engolido, e por aí vai.

Mas o olhar não mentiu igual àquela primeira pessoa. O olhar é sincero, sempre sincero, mesmo que aviste com malícia. A forma vista é a realidade abstraída pelos olhos, enquanto a malícia é o real avistado, porém depurado segundo as intenções do pensamento. E o pensamento nem sempre reflete o visível na sua exatidão.

De qualquer modo, mesmo que as palavras se esmerem para conceituar e definir fatos e situações, coisas e objetos, nem de longe conseguem expressar as realidades sintetizadas pelo olhar. A palavra geralmente define segundo a aparência. Pouco se preocupa com as verdades intrínsecas.

Quem ou o que, além do sensível olhar, sabe definir o que seja uma lua cheia, pássaros em revoada, horizontes ao entardecer, borboletas esvoaçando ao redor da janela, a planta que brota sua primeira flor, a chuva caindo sobre a vidraça embaçada?

Quem ou o que, além do sincero olhar, sabe reconhecer e definir um lenço acenando em despedida, uma cruz sendo cravada na terra, um luto dolorido ou uma lágrima de saudade? Ou quem, melhor que o compreensivo olhar, conhece a percepção de uma face perante o reencontro de um velho amigo?

Escritor
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O ESPÍRITO SERTANEJO MATERIALIZADO NO CANGAÇO


O Brasil, de fato, é um Estado composto de diversas nações. Dentre todas, temos o ethos do sertanejo, a identidade nordestina que perfaz um sentimento de pertencimento, desenvolvida em um alto grau por diversas vezes negligenciada mesmo pelos mais sérios historiadores. Essas nações, contra sua vontade, por diversas vezes, foram e são reunidas sob um mesmo país e uma mesma bandeira que pouco expressam suas próprias identidades, um lema positivista sem nenhuma relação com a realidade e um falso progresso que sintetiza o retrocesso moral e civilizatório. Por diversas vezes, enxergamos reações dessas micronações e “pequenos ethos”, reações estas direcionadas contra o poder central. Foi o caso da “Revolução Farroupilha”, a insurreição dos povos do Sul contra o poder central do Império; a insurreição paulista ocorrida em 1932; e outras lutas encarniçadas levadas a cabo pelos ideais de homens ou de grupos específicos. 

Em toda a luta histórica observada no Brasil, enxergamos a identificação com o local, e não com o Estado. Os homens, de um modo ou de outro, sempre estiveram conectados à sua comunidade e ao seu local mais imediato. A falta de harmonia cultural e a falta de uma dedicada mecânica de construção histórica sempre levaram o país chamado Brasil a uma pobreza de um ethos maior que fosse capaz de conectar a todos os diferentes tipos e etnias em torno de uma só causa, e isso levou a uma maior regionalização das culturas, ainda muito presente nos dias de hoje. 


Dentre estas nações e povos que perfazem o nosso país, dedicarei a atenção aos homens do cangaço e o banditismo desenvolvido por Virgulino Ferreira, o eterno Lampião. Primeiro, é necessário estabelecermos um ponto passivo: o movimento do cangaço não era um movimento revolucionário ou ideológico do ponto de vista técnico. Os cangaceiros não se uniam por um ideal de sociedade ou pela vontade de necessariamente destituir o poder e instaurar uma alternativa em seu lugar. Não podemos comparar o tipo de luta estabelecida no sertão com o tipo de luta do paulista, do gaúcho ou do mineiro, pois aqui ela é descaracterizada da normativa tida como revolucionária. 

Avaliemos, pois, primeiramente o cenário e o tipo de sociedade e política desempenhadas naquela região. A economia nordestina é e sempre foi principalmente agrária, embora, tardiamente no século XIX, algumas indústrias de couro e armamentos fossem estabelecidas. Entretanto, a parte do semiárido e aquilo que compõe o solo que podemos caracterizar como sertão apresenta entraves climáticos e geográficos ao exercício da agricultura. As chuvas são escassas e, pelas próprias altitudes de certos planaltos e chapadas, por vezes as nuvens carregadas são dificultadas no avanço para a região. O clima é desértico e extremamente quente. Uma intensa criação de gado, de cabras e bodes é elemento presente na agricultura sertaneja. Variedades de milho são cultivadas, entre outras culturas, como a cana de açúcar. 

Aparentemente pobre, o sertão é extremamente rico, tanto em fauna quanto em sua flora. Esses elementos despercebidos pelo homem alheio ao ambiente sertanejo e ao modo de vida daquela região são decisivos para a sobrevivência do homem local. A política na região foi herança direta do sistema de capitanias hereditárias e sesmarias, exercido ainda durante o período colonial. O coronelismo era o modo de estruturação do poder, e a figura do coronel era imbuída de poder quase que ilimitado. A autoridade governamental Federal sempre foi muito ausente no elemento sertanejo, e o próprio distanciamento geográfico e o pouco interesse na região, sempre vista como pobre e insuficiente, criavam um sentimento de abandono federal, o que facilitava o poder dos coronéis, senhores soberanos de suas terras. A maior parte da população vivia no campo, ou em pequenas cidades e lugarejos. O sertanejo é o homem pobre, sofrido, abandonado e imbuído de forte misticismo, daí o fato de figuras como o Padre Cícero exercerem tamanha influência e admiração nos corações do povo, especialmente o mais simples. Vivia dos trabalhos em sua própria terra, que não raramente era subtraída pelo coronel. Retirado, deveria sempre se encaminhar para outro local em busca de sua sobrevivência. 

Resignação e aceitação eram os sentimentos políticos do sertanejo. A aceitação dos elementos naturais e da condição climática e geográfica, aliados ao forte misticismo e a incapacidade de reagir perante os desmandos dos coronéis e seus jagunços, criava no sertanejo um sentimento de que tudo aquilo era reflexo da própria vontade divina, ou pela vontade de Deus, ou por simplesmente ter Ele se esquecido daquela região e daquele povo. O sertanejo não reagia contra o poder constituído, pois não possuía força mental para fazê-lo, ensinado desde pequeno que as coisas eram daquele modo, pois haviam de ser, e nada havia que pudesse ser feito contra isso. 

Não possuía os meios materiais, já que mal havia para si o que pudesse comer. Sua própria produção alimentar era ou subtraída pelo coronel ou destruída para dar lugar à pastagem do gado. O banditismo de Lampião e seus cangaceiros foi uma resposta ao status quo vigente, ao poder dos coronéis e à própria realidade do sertão. Se não possuíam o desejo revolucionário e de substituição do poder vigente, certamente possuíam um elevado espírito guerreiro e um refinado grau estratégico e combativo. Eram, em essência, combatentes e rebeldes, e assim os podemos caracterizar, colocando-os em pé de igualdade com qualquer revolucionário socialista russo ou de qualquer movimento nacionalista europeu, mesmo que suas vontades e desejos fossem teoricamente diferentes, elas eram a expressão da revolta de um povo esmagado e oprimido pelas classes dominantes, a síntese da luta de classes e o duelo de interesses entre oprimidos e opressores. No sertão observamos o que foi provavelmente uma das maiores realizações heroicas e combativas da historiografia brasileira.

O cangaceiro não era um ideólogo, um militante partidário ou um sindicalista, não era parte de uma ideologia específica ou da esperança de um novo governo e uma nova sociedade. Eram, em sua maioria, homens e mulheres analfabetos, de baixa instrução e de uma vida sofrida que lhes impulsionava para necessidades mais imediatas do que a leitura ou o intelectualismo. Entretanto, engana-se quem considera os guerreiros do cangaço como ignorantes e inferiores. Aqueles que sabiam ler sempre interpretavam as notícias que eram vinculadas, e isso, aliado ao sensacionalismo e exagero dos jornais, lhes garantia sempre a antecipação às ações das forças repressoras. A sabedoria do homem nordestino é de um elevado grau, e os cangaceiros souberam unir seu conhecimento sobre o terreno e a vida sertaneja a um misto de intuição e interpretação dos sinais, o que lhes garantia imensa capacidade de mobilidade e estratégia militar. Os homens que compunham os bandos do cangaço não eram simples bandidos. 

Todos, sem exceção, possuíam algum fato pessoal que os motivava a lutar furiosamente contra a autoridade e contra o poder constituído, especialmente o dos coronéis. Lampião testemunhou o roubo das terras de seus pais por um coronel e o assassinato de seu pai, Labareda teve sua irmã violentada, e Zé Sereno era perseguido tão somente por seus tios serem criminosos. Muitos ali assistiram a morte de um ente querido de forma covarde e cruel; muitos outros tiveram mulheres de suas famílias violentadas, especialmente pelas forças policiais; outros tiveram suas terras roubadas, ou sua dignidade afrontada por um coronel ou algum de seus jagunços; todos ali possuíam alguma razão não ideológica, mas sim, pessoal, para desempenharem a luta e se rebelarem contra a autoridade. 

O cangaço não foi uma criação de Lampião, mas foi aprimorado e elevado por ele. No auge do movimento, eram contados mais de cem membros divididos em vários grupos. Geralmente, os grupos tinham de sete a quinze componentes, e cada grupo possuía um líder, sendo Lampião o comandante e líder maior. Sua autoridade era aceita e acatada sem questionamento, não por seu totalitarismo, mas por sua capacidade intuitiva e por seu histórico de vitórias, através dos quais garantia o respeito de seus comandados. Os cangaceiros confiavam a vida às mãos de Lampião, e o sentimento de fraternidade e união era forte entre eles.

Como deixa explícito em seu livro “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, a escritora Maria Christina Matta Machado relata que, se os cangaceiros eram temidos por onde passavam, também eram muito benquistos pela população sertaneja, especialmente a mais pobre. Não raramente Lampião e seu bando roubavam gado e alimentos dos mais ricos e os distribuíam às populações locais. Em alguns episódios, eles matavam o gado e convocavam a população a pegar carne à vontade. Esse senso de justiça rápida e instantânea era reflexo direto das necessidades imediatas de sobrevivência às quais o elemento sertanejo estava continuamente exposto.

Quando recebiam ajuda, os cangaceiros protegiam a localidade e realizavam benfeitorias na região. As ações mais violentas aconteciam quando eles eram denunciados ou prejudicados por alguém, ou tinham sua dignidade afrontada. Sendo assim, todo o crime cometido pelos cangaceiros possuía uma razão de acontecer, um contexto por trás do ato momentâneo. A presença das mulheres nos bandos estimulava uma face mais benevolente dos homens. Aliás, a própria mulher no cangaço era extremamente combativa e guerreira, se habituando à vida do sertão e ao movimento do cangaço. 

Durante mais de duas décadas a atividade do cangaço esteve em plena ação. A ação dos cangaceiros foi uma reação à opressão das autoridades, à condição de miséria do sertanejo e a solução para as necessidades sempre imediatas. Analisar o elemento do cangaço como uma simples atividade criminosa e enxergar nos cangaceiros a figura de simples bandidos é estreitar a visão sobre todo um contexto sócio cultural. Nenhum sertanejo encarnou melhor o espírito guerreiro do que Virgulino Ferreira e seus homens, e após a morte destes e a dissolução dos grupos, nenhum outro homem com o mesmo espírito apareceu. A norma retornou ao sertão, e a miséria, o esquecimento, os desmandos, o abandono do governo e a resignação do povo são elementos tão atuais quanto foram na época de Virgulino. O segredo para a longa duração de um movimento de guerrilha como o do cangaço foi a familiaridade com o terreno, a identificação com a região e os elementos, a adaptabilidade com os recursos disponíveis, a simpatia com as populações locais e a união entre os membros do grupo.

O cangaceiro era mais próximo do povo, afinal, era proveniente desse mesmo povo. Enquanto os coronéis e seus jagunços exerciam uma relação de opressão, o cangaceiro exercia um misto de síntese da luta e dos anseios do sertanejo e do descontentamento geral, servindo como figura icônica para as lutas e esperanças de todo um povo resignado. As autoridades, especialmente as federais, abandonavam o sertão, enquanto o cangaceiro fazia parte daquele lugar, se identificava com aquele espaço e com aquele povo. As autoridades nada compreendiam sobre a realidade social do sertão e as necessidades do sertanejo, ou por ignorância, ou por puro desinteresse em solucionar seus problemas. Esse, aliás, é um traço ainda muito atual. O cangaceiro, mesmo que não possuísse um projeto socialista abrangente, tentava, na medida de sua compreensão, solucionar ao menos parte dos problemas mais imediatos da população pobre. Esse populismo atraía fortemente a identificação entre povo e cangaço. 

Isso era reforçado pelo extremo misticismo dos cangaceiros, que realizavam diversos rituais, carregavam amuletos e bênçãos, mantinham sua devoção em seus santos e respeitavam as tradições religiosas e espirituais da localidade. A série de vitórias e a impressionante capacidade combativa destes homens e mulheres eram tão expressivos que uma imagem de misticismo, força sobre-humana e invencibilidade eram atribuídas aos cangaceiros, especialmente a Lampião. Havia um tipo de onipresença destes homens, que conseguiam tomar ciência dos fatos das redondezas e não falhavam em aplicar a vingança àqueles que de algum modo os prejudicassem. Os olhos e ouvidos de Virgulino e seus homens estavam por toda a parte. A incapacidade das autoridades diante da ação dos cangaceiros reforçava o mito de que os cangaceiros eram imbatíveis. Os membros do cangaço estavam ali por motivações pessoais e injustiças sofridas, enquanto que os soldados das polícias estavam naquela função pelo pagamento e pela esperança de conseguir riquezas em posse dos cangaceiros, além da fama por ter matado um dos imortais.

Estes homens simbolizam o espírito guerreiro, insurgente e rebelado que nos falta em nossos dias. Foram, talvez, a última esperança do sertanejo, do habitante de uma região esquecida e abandonada. O cangaço foi o mais bem sucedido movimento de guerrilha já realizado no país, e um modelo para os movimentos de guerrilha subsequentes. Foi uma expressão legítima de um povo com uma identidade tradicional, cultural, geográfica e social, a resposta a um modelo de opressão e um quadro de abandono. Realizaram o feito de demonstrar que aqueles que esmagam o povo e exercem o poder injusto são fracos, impotentes e incapazes, humilhando por diversas vezes as estruturas de repressão consideradas, por décadas, invencíveis e incontestáveis. O homem do cangaço possuía a força e o espírito combativo que deixariam qualquer filósofo sincero extremamente admirado, e a capacidade estratégica que surpreenderia um estrategista do porte de Sun Tzu, e uma habilidade política e social digna dos ensinamentos de Maquiavel. A morte de Virgulino Ferreira significou a morte do espírito de reação do homem sertanejo e do desejo de desafio e combate ao poder instaurado. 

O capitão Bezerra, responsável pelo cerco que pôs fim ao movimento do cangaço e terminou com a morte de Lampião, Maria Bonita e outros grandes nomes do movimento de guerrilha, mais tardiamente testemunhou sobre o caráter de Lampião em entrevista ao jornal “A Tarde”, na Bahia, em três de Agosto de 1938:” Era um homem de palavra. O que ele dizia valia como documento. Se ele fosse vivo hoje, eu não permitiria que ninguém encostasse nem o dedo nele. Hoje eu não acho que ele era bandido. Tem muito bandido engravatado por aí, em liberdade”.

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TIBAU DE TODOS OS TEMPOS

Autora Lúcia Rocha

Lançado no último dia 19 de agosto de 2016, Tibau de Todos os Tempos, Volume I, é o primeiro de uma série de livros´reportagens, de autoria da jornalista Lúcia Rocha, moradora de Tibau desde 2009. Em sua apresentação, a autora explica o que a levou a escrever sobre Tibau e como se deu o processo de criação do primeiro volume. A seguir, a apresentação do livro na íntegra, escrito pela a autora. A arte da capa é de Augusto Paiva, da equipe de diagramadores da equipe do jornal De Fato. O livro foi impresso em Mossoró, algo que Lúcia Rocha faz questão, na gráfica Santa Maria, ex-Igramol, de Michel Mendes.  

Nos dias 31 de agosto e 1º. de setembro, haverá lançamento em Natal. Em Tibau, o lançamento será no dia 9 de setembro, no Viola Beach - a partir das 19 horas - por trás do antigo Brisa. 

Apresentação do livro Tibau de Todos os Tempos - Volume I

Pesquisando sobre Tibau no arquivo do centenário jornal O Mossoroense, são poucos os registros anteriores à primeira metade do Século XX e encontramos duas razões: a primeira talvez porque Tibau pertencia ao estado do Ceará até 1920; e segundo, porque não havia estrada de rodagem até 1932, o que dificultava o percurso entre Mossoró e a então Vila de Tibau.

Nesse tempo, Areia Branca era mais presente nas páginas dos jornais de Mossoró, havia a estrada para Areia Branca, motivada pelo grande volume de negócios em consequência do porto, por onde chegavam e saiam as mercadorias comercializadas em Mossoró e região oeste. Então, o fluxo de pessoas entre Mossoró e Areia Branca, trazendo e levando notícias, era bem maior.


Desde que Henry Koster - um português nascido em 1793,    filho de pais ingleses - passou por Tibau, em 1810, montado em cavalo, em sua passagem pelo nosso litoral, escreveu sobre os morros de areia colorida, Tibau tem sido citada e cantada pelos apaixonados por seu mar limpo e falésias. O texto de Henry Koster sobre Tibau foi publicado em jornal inglês, em 1816. Depois, ele o incluiu no livro Travels in Brazil.

Pois bem, a partir do texto de Henry Koster, decidi pesquisar outros autores ou pessoas comuns que escreveram sobre Tibau. Juntei meu acervo de livros produzidos no Rio Grande do Norte, mais os que garimpei nos sebos - a maioria  publicados pela Coleção Mossoroense, do abençoado Vingt-un Rosado - e trouxe para Tibau, onde li mais de trezentos deles, filtrando tudo o que foi publicado sobre Tibau.


Pela leitura dos livros e jornais antigos, percebe-se o tratamento que davam a esse pedaço de chão. Até a década de 1920, é ‘povoado de Tibau’. Depois, ‘pitoresca estância balneária’. A partir da década de 1950, ‘praia do Tibau’. E até sua emancipação, em 1995, ‘Vila do Tibau’.

A partir do episódio da invasão do bando de Lampião a Mossoró, em junho de 1927, Tibau passou a ser considerada um excelente refúgio, servindo de abrigo às famílias que preferiram se esconder a correr o risco de morrer como heróis da resistência a Lampião.

Antes de 1932, quando construíram a estrada de rodagem, Tibau era citada como um lugar distante, quase inalcançável, ou seja, uma aventura sair de Mossoró para Tibau. A pé, são até hoje, exatamente, doze horas. Vinha-se de cavalo, jumento ou carro de bois. A partir de 1915, quando inauguraram o primeiro trecho da estrada de ferro, entre Areia Branca e Mossoró, surgiu a opção de vir de trem até Porto Franco, onde pegava-se uma charrete ou carro de boi e a viagem prosseguia à beira mar.

Os primeiros veranistas, da década de 1890, só alcançavam Tibau a cavalo. A partir de 1900, vinham em carros de bois. Saíam de Mossoró num dia e chegavam no outro, sempre pernoitando em alguma fazenda no meio do caminho.


Através dos poucos registros na imprensa, tomamos conhecimento de como Tibau passou a ser uma opção de lazer ou descanso. Esses desbravadores pioneiros nunca receberam homenagens do poder público tibauense, não são patronos de ruas ou prédios públicos, como acho que mereciam. Mas Tibau tem nome de mossoroenses como patronos de ruas só pelo fato de ter sido proprietário de casa de veraneio. Esse livro permitirá que o poder legislativo tome conhecimento da história desses homens e mulheres e suas relações e vínculos com Tibau para, quem sabe, merecer homenagens futuramente.

Foi o cearense doutor Castro, primeiro médico a atuar em Mossoró, que propagou que as águas e o clima de Tibau curavam algumas doenças. E, assim, passou a ser o primeiro relações públicas de Tibau. Indicou o tratamento, por exemplo, ao poeta e escritor, Henrique Castriciano que, tempos depois fundou a Escola Doméstica de Natal.


O trabalho de pesquisa não ficou somente nos livros e jornais. Em 2009, passei a apresentar o programa Tibau de Todos os Tempos, na FM Tibau, entrevistando nativos e veranistas sobre Tibau, claro. Criei no Facebook um grupo com o mesmo nome do programa e passamos a ter acesso a inúmeras fotografias de Tibau, a partir da década de 1930, através da contribuição dos membros que foram buscá-las no fundo do baú.

As fotos revelam uma Tibau com morros, casas de taipa, cobertas de palhas, os Pingas, as falésias, a famosa Furna da Onça ou Buraco da Sereia; da Tibau onde famílias de empresários, médicos, funcionários públicos e profissionais liberais passavam meses com suas famílias, numa Tibau sem  energia elétrica, água encanada, automóveis, ultra-leves, bugres, barcos, jet-sky ou quadriciclos. Essas famílias vinham em busca de tranquilidade, de uma vida simples, onde seus filhos pudessem correr à beira mar, brincar entre os morros de areia colorida, caminhar com os pés descalços nas ruas de areia, brincar com os animais, jumentos, carneiros e bodes; com aves como galinha, galo e pintinhos. Podiam ouvir o cantar dos pássaros, chupar cana, comer tapioca, beiju, gelé de côco, tomar água de côco, dentre outras delícias oferecidas por crianças e jovens em meio às casas dos veranistas.


Independente da conta bancária do veranista, em Tibau, sua família levava uma vida comum dentre os nativos: dormia em redes, até nos alpendres, a comida era preparada em fogão à lenha, bebia água das vertentes, comia o peixe pescado em jangadas que voltavam no final da tarde, onde se misturavam veranistas e nativos, para alegria da garotada, curiosa para ver aqueles a quem, Raimundo Nonato denomina de vaqueiros do mar.

Até muito pouco tempo, as famílias ainda vinham a Tibau com essa intenção, de férias para dias diferentes da vida que levam na cidade grande, de poder dormir sem aparelho de ar condicionado, sem micro-ondas, sem telefone ou qualquer meio de comunicação. Mas os hábitos vão mudando, de acordo com as gerações. Já não se anda mais com os pés descalços, já não há mais serenatas. Resta a saudade daqueles tempos em algumas famílias tradicionais que ainda mantêm residências à beira mar ou no entorno da Capela de Santa Teresinha.

As casas de taipa deram vez às mansões e apartamentos – inclusive em condomínios fechados – com aparelhos de telefone celular, internet, antena de TV por assinatura e tudo o que o mundo moderno eletro eletrônico permite, com exceção de uma ou outra como, por exemplo, a do casal Ildérica e João Cantídio, construída em 1929 e ainda mantida em seu estilo original.

Mas os avanços como, por exemplo, a estrada asfaltada em pista dupla reduzindo o tempo da viagem para, no máximo, meia hora, ainda não entrou na mente de muita gente que mantém a casa fechada de fevereiro a dezembro. É como se Tibau ainda fosse muito longe ou algo como um projeto de longa distância. Não usufruem da natureza, do mar e do céu limpos disponíveis de janeiro a janeiro. Com raras exceções. Alguns mudaram para Tibau e vão diariamente trabalhar em Mossoró.

Esse livro, portanto, reúne fotos, textos de livros, revista, jornais e redes sociais, onde escritores, jornalistas, médicos, pesquisadores, pensadores, poetas, formadores de opinião ou pessoas comuns citam Tibau. Cada texto é precedido de uma curta biografia e comentário acerca do autor para ajudar o leitor a situá-lo. Não podia também faltar músicas em homenagem a Tibau.

Reunimos fotos e as primeiras imagens registradas de Tibau, são da década de 1930, período em que o fotógrafo cearense, Manuelito Pereira, migrou para Mossoró. A maior parte dessas fotos estão sem os créditos, porém, agradeço quem  possa nos informar da autoria para registrarmos em futuras edições.

Esses registros fotográficos reúnem membros das famílias Escóssia, Cantídio, Nogueira Mendes, Andrade Freire, Gadê, Monte Rocha, Ferreira Leite e Rosado Maia e alguns – poucos – nativos.

Sou grata a quantos facilitaram a pesquisa, aos que atenderam à minha solicitação de textos e material fotográfico e aos que apoiaram através de um simples incentivo.
        
À Misherlany Gouthier, que digitou todo esse material e também colaborou com a pesquisa e material fotográfico, minha eterna gratidão.
Agradecer também ao nobre colega, Carlos Adams, pela revisão final, como tem feito nos últimos onze anos, em todos os meus livros publicados.

À Consuelo Freire que, de Brasília, colaborou dando tratamento ao material fotográfico aqui publicado com melhor qualidade.

Ao inesquecível e eterno Vingt-un Rosado, por tudo que fez para deixar registrado em livros e plaquetes, páginas da história de nossos dias, de nossos antepassados, costumes, cultura, fatos e curiosidades da nossa província.  O Rosado que mais fez diferença na história recente do Rio Grande do Norte e está eternizado, jamais será esquecido ou deletado pelas gerações futuras. E, por isso, o maior mossoroense de todos os tempos. Como saber dos outros sem a publicação dos feitos deles? Você foi mil, merece a devoção, o respeito e as homenagens de tantos quantos souberam, sabem e saberão de sua existência. Alguém que conheci na infância - fomos vizinhos - e Deus me deu o privilégio de regressar à Mossoró, a tempo de uma salutar convivência em seus últimos anos de vida.  
     
Esse livro é uma viagem no tempo, dito por quem viveu todas as fases de Tibau.

A pesquisa continua para futuras publicações e será um prazer receber colaboração de quem desejar contribuir para o enriquecimento da história de Tibau, através de textos publicados ou que estejam perdidos em alguma gaveta ou baú.

Esse é o primeiro de uma série de livros dedicados a Tibau, com entrevistas numa troca de irmandade entre nativos e veranistas.

TIBAU DE TODOS OS TEMPOS - Volume I - é o primeiro de uma série de livros sobre Tibau, a praia do mossoroense, localizada na divisa do Rio Grande do Norte com o Ceará.
           Lançamento na Feira do Livro de Mossoró, foi no dia 19 de agosto de 2016, a partir das 19 horas, no Expocenter, bairro Costa e Silva.
           No dia 20
, houve uma manhã-tarde de autógrafos no Rust Café, na Praça Bento Praxedes, centro de Mossoró, a autora recebeu alguns amigos.
           Lançamento em Natal, dia 31 de agosto, em evento fechado para a colônia mossoroense. 
           Lançamento em Natal, em evento aberto, dia 1º de setembro, local a confirmar. 

Lançamento em Tibau no dia 9 de setembro, no Viola Beach, na Rua Pirambu, por trás do Brisa, centro.

          
Vendas com entrega via Correios para todo o país. Pedidos através do e-mail: emuribeka@uol.com.br - ao preço de R$ 50,00 - cinquenta reais.
           Contato para mais informações: 84 - 99668.4906

Lúcia Rocha
luciaro@uol.com.br

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MAIS UMA PRECIOSIDADE PARA A MINHA COLEÇÃO

Por Geraldo Júnior

Embora a pessoa que me presenteou com essa fantástica e histórica obra tenha me pedido para não ser citada, não posso deixar de fazer um agradecimento público.

O livro é a sexta edição (Traduzida) lançada no ano de 1960.

O Livro HISTÓRIA DE CRISTO do escritor italiano Giovanni Papini para quem ainda não conhece é o livro que Lampião aparece lendo na fotografia abaixo e que foi um presente ofertado pelo comerciante Jackson Alves de Carvalho no mês de novembro do ano de 1929.

Meus sinceros agradecimentos.

Afinal Capitão que se preze, não pode deixar de ter em mãos um exemplar dessa obra para transmitir os ensinamentos do Mestre à Cabroeira... 

Geraldo Antônio de Souza Júnior (Administrador do Grupo)

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AS CARTAS DE JOÃO DANTAS E A MORTE DE JOÃO PESSOA

Por Manoel Severo

O que não se esperava é que um fato vindo da pequena Paraíba pudesse desaguar na grande revolução de 30... Dia 26 de julho, era assassinado o presidente do estado da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, renomado político e candidato à vice-presidência da chapa derrotada do gaúcho Getúlio Vargas.

João Pessoa

As esquinas das ruas Palma e Nova, no centro rico de Recife, foi o palco dos 3 tiros que viriam a tirar a vida de João Pessoa. Ali, na Confeitaria Glória, ponto de encontro da elite nordestina, em 26 de junho de 1930 morria uma das maiores lideranças políticas do nordeste e aliado do derrotado Getúlio Vargas.  O crime, apesar de ter sido o estopim para o movimento “revolucionário” não teve ligação com a campanha presidencial. 

Um conflito entre o advogado paraibano João Dantas, João Pessoa e o coronel José Pereira, chefe da cidade de Princesa teria sido o real motivo do assassinato. Senão vejamos: era presidente do estado da Paraíba, João Suassuna, que a revelia da oligarquia de Epitácio Pessoa, articulava a sua própria sucessão lançando a chamada chapa dos 3 Jotas: seu chefe de polícia Júlio Lyra e os coronéis José Pereira e José Queiroga para a presidência, e primeira e segunda vice-presidências do estado, consolidando sua força no estado. 

Epitácio Pessoa interveio e lança seu sobrinho João Pessoa que ganha a disputa e no discurso de posse em outubro de 1928 declara: “que desejava assegurar garantias a todos e que levaria a polícia a vasculhar propriedades à procura de armas que abasteciam o cangaço.” Frontalmente contra a política sertanista de Suassuna e Zé Pereira de complacência com o banditismo cangaceiro.  No conflito envolvendo as partes, que culminou com a chamada “Revolta de Princesa”, o advogado João Dantas, filho do coronel Franklin Dantas do município de Teixeira, havia tomado partido de Zé Pereira.
  
Anayde: Cartas de amor publicadas...

A oposição mantida a João Pessoa por João Dantas se efetivava violenta, um apartamento seu, localizado em um sobrado da então Rua Direita, 519, bem no centro da capital e próximo do palácio onde trabalhava João Pessoa, foi invadido pela polícia no dia 10 de julho, livros, documentos e móveis de João Dantas foram queimados na calçada fronteira. Ali também teriam sido recolhidas correspondência íntimas entre João Dantas e sua noiva Anayde Beiriz, ato contínuo O jornal A União, que já era então o órgão oficial do governo da Paraíba, publicou uma série de acusações gravíssimas a familiares de João Dantas, inclusive ao patriarca, Cel. Franklin Dantas, unido a isso fizeram publicar em jornal local, as cartas que João Dantas tinha escrito para sua amada, Anayde . 

Aqui abrimos um parêntese para citar declaração do historiador José Joffily sobre o escárnio sofrido por Dantas com relação à privacidade de sua relação com a amada: “Bem me lembro, quando, a caminho do Colégio Pio X onde estava concluindo o ginásio, entrei numa fila, com outros estudantes, para ler sonetos extravagantes e páginas confidenciais do diário do fogoso advogado, eram confidências amorosas entre o advogado João Dantas e Anayde Beiriz”.

As desavenças e ódio passaram a deixar cada vez as ácidas e perigosas as ligações entre Dantas e João Pessoa, culminando, diante da pressão de amigos, com a mudança de João Dantas da Paraíba para Olinda em Pernambuco.  
  
Jornal do Brasil e a manchete da morte de João Pessoa

João Dantas, que morava em Olinda, aproveitou uma visita do presidente do visinho estado paraibano à cidade do Recife; a despeito de visitar um amigo enfermo, o Juiz Francisco Tavares da Cunha Melo, internado no Hospital Centenário; mas que segundo afirmação de Ronildo Maia Leite, “provavelmente João Pessoa viera ao Recife encontrar-se com uma cantora com quem mantinha um romance secreto. ”Essa cantora seria a soprano Cristina Maristany. E quando o mesmo se encontrava na Confeitaria Glória, entra João Dantas, armado de um revólver, acompanhado do cunhado Moreira Caldas. Se aproximando de João Pessoa teria dito: 

”-  João Pessoa? Eu sou João Dantas”. 

Aqui saem os cangaceiros das caatingas e entram os cangaceiros da capital... Vários tiros foram disparados por João Dantas e por Moreira Caldas, não se sabendo ao certo, qual tenha sido a bala fatal que mataria o político. Ainda segundo Ronildo Maia “ele morreu com as joias que, minutos antes, havia comprado na joalharia Krauze para sua amante”. Em seguida ao assassinato do líder paraibano, o governo é assumido por seu vice-presidente Álvaro Pereira de Carvalho, que  muda o nome da capital da Paraíba para João Pessoa e o acrescenta o lema NEGO à bandeira do Estado, numa referência à resposta que João Pessoa teria dado via telegrama, ao presidente Washington Luís sobre a negação de seu apoio à candidatura vitoriosa de Júlio Prestes; o vermelho da flâmula representava o sangue da morte de seu líder e o preto, o luto.

João Dantas

Voltando à Confeitaria Glória; João Dantas ainda seria ferido pelo motorista de João Pessoa quando fugia, e depois acabaria sendo preso ao lado do cunhado Moreira Caldas e de novo a ironia do destino colaria cabeças decapitadas; como em Angico; no caminho do povo nordestino. 

Recolhidos à Casa de Detenção, do Recife, os dois foram degolados e tiveram suas cabeças enviadas para a Paraíba, era o dia 03 de outubro de 1930, o crime teria sido arquitetado pelo tenente da força policial Ascendino Feitosa, e seu auxiliar o soldado João da “Mancha”; ele tinha uma mancha escura no rosto, razão pela qual lhe foi dado esse apelido; como executor.  

Agora nos valemos de um trecho de entrevista prestada pelo Coronel Manuel Arruda de Assis, oficial da Policia Militar da Paraíba a José Romero Araujo em janeiro de 1989, “o indivíduo João da Mancha era considerado inclusive por seus antigos colegas de farda, como um psicótico, extravagante sangrador das forças volantes paraibanas. Naquele dia rompeu, com um bisturi pertencente ao médico Luiz de Góes, a carótida do advogado João Dantas, como também de seu cunhado, o engenheiro Moreira Caldas, ambos assassinados com a mesma “técnica”. O “serviço” fora feito por um profissional macabro que conhecia muito bem o seu “ofício”. O militar sabia milimetricamente onde iria romper a artéria, visto que a luta corporal travada entre o intrépido advogado João Dantas e os seus algozes impediu o seccionamento no ponto exato, como pretendia Dr. Luiz de Góes.” E continua o coronel Manuel Arruda, “só alguém que estava profundamente em contato com a “arte” de sangrar poderia ter feito um “trabalho” com tamanha perfeição”.
  

E continuando com as reflexões de Manuel Arruda, “quando as tropas comandadas por Juarez Távora, ativo integrante da coluna Prestes, chegaram ao Recife, o primeiro local visado pelos militares paraibanos foi a detenção onde se encontravam presos João Dantas e Moreira Caldas que se tornou alvo dos comandados por Ascendino Feitosa, estando entre estes João da “Mancha” e o médico Luiz de Góes.” Conforme o entrevistado, esse médico era capaz de tudo, regido por verdadeiro espírito sanguinário. E segue: “dominados os prisioneiros, Luiz de Góes apontou a Ascendino a carótida. João Dantas entrou em luta corporal com seus algozes, sendo atingido na sobrancelha. Com precisão invulgar, João da “mancha” recolheu o bisturi e aplicou certeiro golpe no local indicado, pondo fim à vida de João Dantas.” O entrevistado revelou que o corpo do advogado foi profanado de diversas maneiras, mesmo quando estertorava. Em seguida, o cunhado Moreira Caldas teve o mesmo fim, morrendo implorando para que o deixassem cuidar da família.

Segundo Manuel Arruda de Assis, era comum solicitar a presença de João da “Mancha” quando cangaceiros eram aprisionados. No combate de 1923, quando o sucessor de Sinhô Pereira fora ferido no tornozelo, no qual pereceram Lavandeira e Cícero Costa, ambos foram sangrados pelo frio soldado volante que se aperfeiçoou em matar usando o extremo da covardia e da perversidade.

Entretanto outra versão defende que João Dantas e Moreira Caldas se suicidaram com golpes de um mesmo bisturi, primeiro Dantas, depois Caldas, tese essa reforçada por supostos bilhetes deixados pelos mesmos em baixo de seus travesseiros. Segundo afirmações de José Joffily "como poderiam estes documentos de despedida, escritos em instante derradeiro, apresentar a correta redação, o talho das letras e a autenticidade das assinaturas, comprovadas em perícia, se tudo fosse escrito no tumulto de uma feroz degola e trucidamento?” e continua citando a confidência de João Dantas ao seu irmão Manoel, como prova do seu intuito de suicidar-se:

“- No caso de um movimento armado e vitorioso, 
eu não me entrego. Mato-me!” 

 “- E tens ao menos com que te matar?” 

 “- Ele abriu a gola do pijama e retirou dele um afiado bisturi.”.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço

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O ACAUÃ

Por Geraldo Júnior

Muito se fala no acauã e no seu canto, mas tenho plena certeza que poucos (as) o conhecem. O canto desse pássaro tanto para o cangaceiro quanto para o sertanejo nordestino em geral significava agouro, mau presságio. 


O canto ou a simples presença dessa ave era o suficiente para que caminhos fossem alterados e viagens adiadas. Superstição ou sabedoria popular?

O Acauã (Herpetotheres cachinnans) é uma ave pertencente à ordem dos Falconiformes, da família Falconidae. É conhecida pelo seu canto característico e por se alimentar de serpentes.

Características

Os membros do gênero Herpetotheres são falcões de tamanho médio que têm as asas curtas, arredondadas, e uma cauda fortemente arredondada e longa. Seu corpo é bastante robusto. Os pés são curtos e com os dedos cobertos com escamas pequenas, ásperas, sextavadas — uma adaptação para suportar as mordidas de serpentes venenosas.

As penas da coroa são estreitas, duras e pontudas, dando forma a uma crista que é limitada por um colar. Este gênero tem algumas peculiaridades anatômicas e é colocado também em uma família própria.

No Acauã adulto, a cabeça é amarela pálida, variando de marrom a branco dependendo do indivíduo e do desgaste das penas. A máscara facial preta e larga estende-se em torno da parte traseira do pescoço com uma borda branca. As penas da coroa têm eixos escuros produzindo um efeito raiado. A parte superior das asas e da cauda é marrom muito escuro; o uropígio é também amarelo pálido ou branco; a cauda apresenta barras estreitas preto e branco, terminando com pontas brancas. A maioria da parte inferior é amarela pálida, salpicada de marrom escuro nas coxas, incluindo a base das penas primárias. O fim das penas primárias é barrado, com cinza mais pálido. Algumas manchas escuras sob as asas não são incomuns. Os olhos são marrom escuro. A íris é preta; os pés são cor-de-palha.

Em plumagem imatura, a ave é similar ao adulto, não sendo tão pronunciado o limite entre zonas escuras e claras; as penas são marginadas com marrom pálido. As áreas claras da plumagem são brancas, mais claras que nos adultos.

INFORMAÇÕES: WIKIPÉDIA
FOTO: ANDREAS TREPTE

Geraldo Antônio de Souza Júnior (Administrador do Grupo O Cangaço)

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