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segunda-feira, 26 de junho de 2017

INVASÃO E RESISTÊNCIA - OS 90 ANOS DA DERROTA DE LAMPIÃO NO CONFRONTO COM O POVO DE MOSSORÓ –" ESTRATÉGIA PARA O ATAQUE"- PARTE VI

 Por José de Paiva Rebouças

Ao ver Lampião, Luiz Siqueira, o Formiga, pediu proteção. O cangaceiro garantiu, mas lhe fez um interrogatório. Quis saber quantos homens estavam armados em Mossoró. Formiga exagerou e disse que talvez uns duzentos.


Lampião chamou o estado-maior e voltou a detalhar o plano de invasão. Escutaram as ponderações de Massilon que desenhava na areia um mapa das principais artérias da cidade.

De acordo com a estratégia, o ataque seria protagonizado por duas colunas que se dividiria em quatro ao entrar na cidade. Sabino comandaria a tropa. Os melhores atiradores seriam distribuídos nos grupos, cada um com cerca de 400 cartuchos.

Lampião propôs entrar pela barragem do Rio Mossoró, mas Formiga avisou que seria arriscado, pois havia um piquete naquela área. Aborrecido, Lampião chamou Massilon.

“Você tinha me dito que entrava em Mossoró com dez homens. A cidade tinha poucos soldados e os civis estavam desarmados e eram mofinos. Agora o homem tá disparado a brigar. Não estou gostando nada disso”. Reclamou.

PRIMEIRO ULTIMATO AO INTENDENTE DE MOSSORÓ

Fonte da imagem: http://www.blogdogemaia.com/detalhes.php?not=942

Lampião e Sabino perguntaram ao coronel Antônio Gurgel se ele conhecia o coronel Rodolfo Fernandes. Gurgel disse que sim, mas não era íntimo.

Coronel Antônio Gurgel - Fonte da imagem: https://tokdehistoria.com.br/tag/coronel-gurgel/

Lampião ordenou que o coronel inscrevesse uma carta ao intendente. Determinou que no bilhete fosse cobrado 500 contos de réis para o bando não entrar na cidade.

Gurgel achou muito, Lampião então baixou para 400. Assim a carta foi feita.

"13 de junho de 1927. Meu caro Rodolfo Fernandes:

Desde ontem estou aprisionado do grupo de Lampião, o qual está aquartelado aqui bem perto da cidade. Manda, porém, um acordo para não atacar mediante soma de quatrocentos contos de réis – 400,000$000. Posso adiantar sem receio que o grupo é numeroso, cerca de 150 homens bem equipados e municiados à farta. Creio que seria de bom alvitre você mandar um parlamentar até aqui, que me disse o próprio Lampião, será bem recebido. Para evitar o pânico e o derramamento de sangue, penso que o sacrifício compensa. Tanto que ele promete não voltar mais à Mossoró. Diga sem falta o Jaime que os vinte e um contos que pedi ontem para o meu resgate não chegaram até aqui, e se vieram, o portador se desencontrou. Assim, peço por vida de Yolanda para mandar o cobre por uma pessoa de confiança para salvar a vida deste pobre velho. Devo adiantar que todo o grupo tem me tratado com muita deferência, mas, eu bem avalio o risco que estou correndo. Creia no meu respeito. 

(a) Antônio Gurgel do Amaral".

Depois de escrita, a carta foi lida em voz alta. Lampião perguntou quem era Yolanda e o coronel explicou se tratar da sua neta de dois anos. Ficou a cargo de Formiga o trabalho de levar a carta e trazer resposta de Mossoró.

Yolanda Guedes - Fonte da imagem: http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/12/o-ouro-dos-cangaceiros-para-yolanda.html

Ao chegar à cidade, o portador pode ver a aflição às pessoas. Casas vazias e mulheres chorando pelas ruas em desalinho. Perto do meio dia, entregou o bilhete à mão do intendente Rodolfo Fernandes. Ele leu o texto em voz alta para que os presentes acompanhassem o drama.

O coronel fez discurso efusivo bradando a necessidade da luta por parte de Mossoró. Em seguida, contou vantagem sobre a preparação da cidade. Com o fim da reunião, pediu ao portador que aguardasse na recepção pela resposta da carta. Horas depois lhe entregaram um pequeno bilhete. 

"Mossoró, 13.06.1927
Antônio Gurgel

Não é possível satisfazer-lhe a remessa de quatrocentos contos (400.000$000) pois não tenho e mesmo no comércio é impossível se arranjar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o gerente do Banco, sr. Jaime Guedes. Estamos DISPOSTOS a recebê-los na altura em que eles desejarem. Nossa situação oferece absoluta confiança e inteira segurança.

Rodolfo Fernandes".

Preparação da cidade para o combate

Apesar da confiança de Rodolfo Fernandes  o clima em Mossoró era de pânico. Antes do meio dia, estima-se que 15 combóis já tinham partido para Areia Branca. Dali a pouco, nem mesmo telégrafo  teria mais gente para anotar os recados.

Aparelho de enviar telegrama -http://www.explicatorium.com/fisica/telegrafo.html

Trincheiras tinham sido espalhadas pela cidade, mas a maioria estava incompleta. Muita gente tinha largado as armas e ido embora, outros caíam de sono por causa da vigília da noite.

A maior barricada ficou na frente da casa do chefe da intendência... Sacos de algodão foram colocados em posição estratégica de modo a não permitir qualquer transposição. Pelo menos 40 homens estavam de prontidão do quintal ao telhado.

Trincheira da casa do prefeito Rodolfo Fernandes. À esquerda da foto acima está a igreja de São vicente 
http://ataquelampiaomossoro.blogspot.com.br/

Manoel Alves de Souza, Léo Teófilo e Manoel Félix ficaram no campanário da capela de São Vicente. Tinham a incumbência de informar qualquer aproximação. 

Estação Ferroviária de Mossoró - https://cronicastaipuenses.blogspot.com.br/2015/09/centenario-da-estrada-de-ferro-de.html

Na Estação Ferroviária, hoje Estação das Artes Eliseu Ventania, Vicente Carlos de Sabóia Filho, o Saboinha, diretor gerente da estrada de ferro, distribuiu homens armados em pontos estratégicos. Ao seu lado, estavam o engenheiro Lafaiete Tapioca, o comerciante Raimundo Leão de Moura e os militares Severino França, Clóvis de Araújo e o sargento Pedro Sílvio, além de nove funcionários.

A quarta trincheira de defesa da cidade de Mossoró, em 1927, foi montada nos armazéns da firma Tertuliano, Fernandes & Cia - http://amantesdeclio.blogspot.com.br/2015/08/

Outra trincheira foi montada na empresa Tertuliano Fernandes & Cia. Na igreja matriz, estavam posicionados o dentista Antônio Brasil, com um binóculo, e dois policiais. No ginásio Diocesano, outros quatro homens; mais quatro na torre da igreja do Sagrado Coração de Jesus e oito no Mercado Central.

Mercado Central de Mossoró - http://aluisiodutra.zip.net/arch2011-01-01_2011-01-31.html

Seis atiradores se deslocaram para a parede divisória das águas do rio. Piquetes menores foram dispostos no prédio da Mesa de Rendas do Estado, no Grupo Escolar Eliseu Viana, no Grande Hotel, na residência de Ezequiel Fernandes e na Cadeia Pública.

Grande Hotel de Mossoró - http://jotamaria-hmpb.blogspot.com.br/

Os tenentes Abdon Nunes, Laurentino Morais e João Nunes ficaram responsáveis pelas patrulhas nas áreas mais abertas. Coube ao vigário da matriz, Padre Mota corrigir as trincheiras. Encontrou diversos problemas e chegou a dissolver a da Caieira, redistribuindo os homens.

Padre Mota com Juscelino - http://www.tomislav.com.br/o-padre-visionario-que-aprimorou-sua-cidade/

ÚLTIMA TROCA DE BILHETES

Passavam de duas da tarde e Formiga não chegava. Os cangaceiros não podiam mais esperar. Mesmo sem notícias do intendente, precisavam seguir. Às margens do rio Mossoró, próximo ao Estreito, o capitão voltou a perder a paciência com Massilon.

“Você disse que o rio estava seco. A viagem está atrapalhada! Nada está dando certo”, reclamou. Massilon pouco respondeu. Atravessaram o rio com água na cintura.

Massilon Leite, Lampião e Sabino Gomes - http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Na outra margem, Sabino usou os reféns como escudo humano. Antônio Gurgel ia na frente, 

“Você é o nosso ministro da guerra”. Sentenciou. 

Coronel Antônio Gurgel - http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Pouco adiante, perceberam a aproximação de um cavaleiro. Era Formiga com a resposta de Rodolfo.

Ao saber do conteúdo Lampião amassou e jogou fora o papel. Alarmou aos comparsas que iriam mesmo tomar Mossoró. 

“Vamos atacar! É vergonhoso chegar tão perto e voltar sem fazer uma tentativa”, destacou, conforme Sérgio Dantas.

Kiko Monteiro, Vera Ferreira e Sérgio Dantas

Lampião parecia apreensivo. Desconfiava do fracasso e fez nova tentativa com Rodolfo. Escreveu de próprio punho outro bilhete.

Antônio Gurgel disse que ali disse uma de suas frases mais célebres. 

“Cidade de mais de uma igreja não é lugar para cangaceiro”. (Lampião).


" Cel Rodolfo

Estando Eu até aqui pretendo drº. Já foi um aviso, ahi pº o Sinhoris, si por acauso rezolver, mi, a mandar será a importança que aqui nos pede, Eu envito di Entrada ahi porem não vindo essa importança eu entrarei, ate ahi penço que adeus querer, eu entro; e vai aver muito estrago por isto si vir o drº. Eu não entro, ahi mas nos resposte logo.

Capm Lampião."

Bilhete de Lampião - Fonte: http://blogdosenadinho.blogspot.com.br/2009/12/cel-rodolfo-estando-eu-ate-aqui.html

Ao receber a mensagem de Lampião, coronel Rodolfo Fernandes fez como antes e compartilhou com outros em seu gabinete. Recebeu apoio dos presentes. Após conversa longa com o tenente Laurentino de Morais e Sabóia Filho, escreveu, também de próprio punho, a resposta ao cangaceiro. Mais uma vez foi inflexível.

"Virgulino Lampião,

Recebi seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo que o Sr. Queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente inabalável na sua defesa, confiando na mesma.

a. Rodolfo Fernandes Prefeito
13.06.1927"

Caminhada para o ataque

No saco, a dois quilômetros de Mossoró, os reféns foram acomodados na casa de Joaquim Soares. Antônio Gurgel, Manoel Barreto e Formiga em um quarto; dona Maria José Lopes e o coronel Joaquim Moreira no outro.

Dona Maria José Lopes - http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Na preparação para a guerra, o plano original tinha sofrido um contratempo. Embriagado demais, Jararaca não possuía mais condições de comando. Com isso, restaram apenas três frentes: A de Sabino, a de Massilon e a do Próprio Lampião.

O cangaceiro Jararaca preso em 1927 na cadeia pública de Mossoró - http://blogdomendesemendes.blogspot.com

Oito homens, sob o comando do cangaceiro Félix (da Mata), foram destacados para vigiar os reféns, esperar os resgates, cuidar dos animais e combater qualquer resistência.

O cangaceiro Félix da Mata Redonda - Quem a coloriu eu não tenho a mínima ideia - http://blogdomendesemendes.blogspot.com

No terreiro, Lampião dava as últimas orientações antes de partirem. 

“Sabino, você prenda logo o coronel Rodolfo Fernandes, porque assim ele arranjará o dinheiro”, disse.

O céu estava cinzento naquela tarde, não havia vento e da terra subia um mormaço insuportável. Apesar de motivados, havia sobressalto de preocupação.

Amadeu Lopes, Pedro José, Azarias Januário, Júlio Soares, Joaquim germano, Guilherme de Melo, Belarmino de Morais, Sancho Amaro, Geraldo Oliveira e o filho, reféns menos importantes presos durante a jornada no alto Oeste, foram colocados na frente como escudos humanos.

Pouco minutos de caminhada, os homens de Sabino invadiram a mercearia de Antônio Domingos. Abandonada desde o dia anterior. Mas à frente, violaram a residência de Luiz Firmino, também vazia de gente.

Ex-integrante da extinta Guarda Nacional, Firmino mantinha em casa uma farda limpa e engomada da corporação. Ao encontrá-la, Sabino se livrou das roupas velhas e se enfiou no casaco. Ficou parecendo um militar.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição - http://telescope.blog.uol.com.br/sociedade/arch2010-03-01_2010-03-31.html

Passaram pela caieira, onde Padre Mota tinha desfeito a trincheira, e, por volta das três e meia da tarde, alcançaram o bairro Alto da Conceição. Uma sentinela atirou para cima avisando da entrada dos cangaceiros e fugiu.

Com o susto, os bandidos reagiram, mas atiraram à toa. Os reféns, que estavam mais à frente, aproveitaram o momento de tensão para escaparem em direção ao rio. Não foram seguidos.

Continuaremos amanhã com o título:
"INVASÃO E RESISTÊNCIA: A HORA FATAL"

Fonte: Jornal De Fato
Revista: Contexto Especial
Nº: 8
Páginas: 26, 27, 28, 29 e 30.
Ano: 6
Cidade: Mossoró-RN
Editor: José de Paiva Rebouças
E-mail: josedepaivareboucas@gmail.com
Ilustrado por: José Mendes Pereira

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REUNIÃO DA AFLAM NA PRAÇA.

Por: Benedito Vasconcelos Mendes

Sessão da AFLAM - Academia Feminina de Letras e Artes Mossoroense, na qual a Cantora e Acadêmica GORETTI ALVES fez o elogio à sua Patrona. 



A Professora e Acadêmica SUSANA GORETTI LIMA fez a apresentação da nova Acadêmica GORETTI ALVES, com um discurso conciso e de linguagem elegante. 


A referida sessão ocorreu em praça pública, ao lado do Memorial das Artes, na Av. Rio Branco, em Mossoró, fazendo parte das festividades juninas. 

No final dos trabalhos formais da AFLAM, houve uma belíssima apresentação musical, quando Goretti Alves cantou várias canções juninas do repertório da sua Patrona MARINÊS (xaxado, xote e baião).

Benedito Vasconcelos Mendes

Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaquiano José Romero de Araújo Cardoso

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LAMPIÃO INCENDEIA AS FAZENDAS DO CORONEL ZÉ PEREIRA E AINDA MANDA AVISAR A POLICIA.


Na tarde do dia 19 de janeiro de 1925, Lampião incendiou a fazenda Olho D’Água em Betânia PE, pertencente ao Coronel José Pereira Lima, de Princesa Izabel PB. Além do incêndio, Lampião matou muito gado no pátio da fazenda, o Sr. Izídio de São Caetano, era o vaqueiro da propriedade. No mesmo dia, Lampião seguiu para incendiar a fazenda Melancia, também do Coronel Zé Pereira. Virgulino e seu bando foram pernoitar na Melancia. Residia na casa da fazenda, o Sr. Davi Firmo de Araújo, conhecido apenas por Firmo. Na manhã seguinte, dia 20 de janeiro de 1925, Lampião levantou cedo, indo sentar-se na cozinha, esperando o café. Fernandinha, esposa de Firmo, vendo-o ali sentado, começou a chorar. Vendo aquele choro, Lampião perguntou: Se ela estava com medo, disse ainda que não chorasse e não tivesse medo, que ele não ofendia a gente de João Araújo (genitor de Fernandinha), que podia ficar tranquila, pois nada do que pertencesse a ela, queimaria. 


Ali só queria queimar o que fosse do Cel. Zé Pereira, o que fosse dela podia retirar da casa. Destemida, Fernandinha disse que, seu choro não era com medo, nem com pena de nada, que ele podia queimar tudo. O choro era porque há dois meses, ele havia matado dois primos seus e estava ali em sua frente. Se ela pudesse, não o veria. Rapidamente respondeu o cangaceiro, que ela tinha razão, e que ele não tinha nenhuma culpa na morte de seus primos, uma vez que, os mesmos morreram na luta, brigando. Assim como seus primos morreram, ele também poderia ter morrido. Os primos a que se referia Fernandinha eram Inocêncio de Souza Nogueira e Olímpio Gomes Jurubeba, que foram mortos no fogo da fazenda Baixas, município de Vila Bela, ocorrido no dia 20 de novembro de 1924.

Lampião determinou a retirada de todos os troços de dentro da casa, ele mesmo ajudando. Também pegou uma enxada e arrastou de dentro de casa para o terreiro, uma grande quantidade de milho debulhado. Mandou Firmo ir a Betânia chamar seu irmão Antônio Araújo (conhecido por Totonho), por ser o gerente das fazendas do Cel. Zé Pereira. Chegando Totonho, em um carro de boi, Lampião o fez ciente de que iria incendiar a fazenda. Tomou o carro de boi e transportou a madeira para incendiar a casa. Lampião ainda pediu o comparecimento do Sr. Alcides Passos, residente em Betânia, para retirar do cercado os seus animais.

Retirados os animais, os cangaceiros botaram fogo na casa e em todas as cercas da fazenda, tudo virou cinza, o prejuízo do Coronel foi total.

Depois do incêndio, Lampião mandou por Alcides Passos, um bilhete para o Sargento José Leal, Comandante da força volante de Betânia. No escrito, mandava dizer ao Sargento Leal, que se encontrava na fazenda Melancia, com 35 homens, todos de sangue no olho, incendiando a fazenda do Coronel Zé Pereira, se o Sargento achasse ruim, juntasse seus macacos e fosse para brigar, pois o estava esperando, pois naquele dia estava querendo limpar a ferrugem de seu refle. Recomendou mais, que o Sargento levasse a farinha que o feijão já estava pronto para o almoço. Datou e assinou: Virgulino Ferreira da Silva – Vulgo: Lampião – Governador do Sertão.

Em Betânia, Alcides Passos procurou Severino Pires, para combinarem se entregava ou não o bilhete. Severino foi pela entrega imediata do escrito, pois o Sargento bradava dia e noite que, quem soubesse de Lampião na região e não comunicasse, morria no pau. 

Recebendo o bilhete, o Sargento ficou enfurecido, juntou os pés e disse: 

"- Vou agora mesmo brigar com esse bandido".

Então gritou para macacada, se prepararem para brigar com Lampião. O soldado Luiz Nogueira de Carvalho tentou mostrar ao sargento a desvantagem em atender aquele chamado, pois o mesmo devia ser uma grande cilada de Lampião contra a Força. Disse ainda que, Lampião não era de brincadeira, que o Sargento não o conhecia, por ser do Recife. O Comandante Leal perguntou se o soldado Luiz Nogueira estava com medo. Respondeu que não, apenas sabia que a volta de Lampião era amargosa, se o Sargento estava duvidando que fosse, mas o aconselhava atacar bem as alpercatas, para não ficar enganchadas nas caatingas do Navio e chegar descalço em Betânia.

O Sargento respondeu: 

"- Eu sou é homem e venho do Recife para perseguir, brigar e prender Lampião. 

Vários civis também se dirigiram ao sargento, pedindo que não atendesse ao chamado de Lampião. O Sargento respondeu que era macho e a prova ia dar naquele dia, pois levava um maço de cordas, para amarrar Lampião. Tinha que entrar com o bandido amarrado dentro de Betânia para todo mundo ver. Antes de seguir, o Sargento pôs em liberdade o soldado José Mariano Ferreira (conhecido por Canela de Aço), que estava detido, o qual pegou o fuzil e saiu rua acima e rua abaixo, dizendo que naquele dia ia morrer. Os companheiros pediam que deixasse de ilusão. Respondia que era um pressentimento que estava com ele. Pronto à tropa, quinze praças, número insuficiente para enfrentar Lampião e seu bando, o Sargento deu ordem de marcha, partindo na frente o soldado Manoel Luiz Taveira e alguns companheiros, o Sargento marchou no coice da tropa.

Lampião por sua vez, preparou uma emboscada em forma de quadrado. Tudo pronto, disse: 

“Está bem feito o curral, o boi José Leal chega já, já para se brigar”. 

Naquele momento, Lampião apontou e marcou o lugar que a Força devia estar, isto é, do meio para o fim do quadrado, recomendando aos cabras que, quando a força estivesse ali, ainda não atirassem, deixasse chegar um pouco à frente, para dar tempo aos últimos “macacos” entrar no curral, depois podiam fechar a porteira e fazer a faxina completa. Coincidência com a previsão de Lampião, no lugar que ele marcou, a força encontrou um vaqueiro e parou mesmo, perguntando se não dava notícias dos bandidos. Foi quando um cangaceiro que estava deitado na emboscada levantou a cabeça, sendo visto pelos soldados, que gritaram: 

“Olha os inimigos companheiros!” 

Estas palavras já foram acompanhadas de uma grande descarga de tiros, caindo morto o soldado José Mariano Ferreira (Canela de Aço) e gravemente ferido com as pernas quebradas, o soldado Manoel Luiz Taveira. Por não suportarem a chuva de balas, os soldados desorientados correram deixando os dois companheiros em poder dos inimigos. Dentro de todo sufoco, o soldado Luiz Nogueira não se cansava de gritar, chamando o Sargento Leal com as cordas para amarrar Lampião. Luiz Nogueira olhava para todos os lados, mas não via o Comandante Leal, pois antes de entrar no quadrado do curral, fugiu tão apavorado, que tirou da Fazenda Melancia para Betânia, cerca de três quilômetros, de uma só carreira, sem ter tempo de olhar para trás. O Sargento José Leal chegou a Betânia demostrando sinais de loucura, entrando nas casas pelas portas da frente e saído pelas portas dos fundos, estava muito aflito sem encontrar um lugar para se esconder.

Do livro: Memórias de um Soldado de Volante
De: João Gomes de Lira

https://www.facebook.com/josemendespereira.mendes.5

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O FIM DO CANGAÇO, E A MORTE DE LAMPIÃO

Por: Dr.Leandro Cardoso

Na minha opinião há 3 revezes na carreira de Lampião que foram fundamentais para o seu fim:

Lampião e seu banco em Juazeiro do Norte

1) o ataque à Mossoró (no Rio Grande do Norte), que culminou com sua expulsão de Pernambuco;

O cangaceiro Gato

2) o ataque de Gato, Moreno e Corisco a Piranhas, que enfureceu a polícia e o Governo, aumentando em muito a concentração de volantes na região;

O cangaceiro Moreno
3) o Estado Novo em 37, com a retirada do poder dos potentados locais por Getúlio Vargas, o que enfraqueceu o esquema de sustentação de Lampião. 

O cangaceiro Corisco

Percebam que próximo do fim somente pequenos proprietários ficaram mais próximos dele.

Daí para a morte de Lampião foi um pulo.

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domingo, 25 de junho de 2017

A IDEIA DAS CASAS DE FARINHA ENQUANTO HERANÇA DOS INDÍGENAS E AS INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS IMPLEMENTADAS PELO COLONIZADOR PORTUGUÊS

Por Rita de Cássia Rocha (1) - José Romero Araújo Cardoso (2)

Herdamos a ideia da casa de farinha dos índios tapuias, os quais haviam introduzido o produto na alimentação há mais de quatro mil anos antes da chegada do colonizador português.
       
Faz-se necessário ressaltar que o processo de fabricação da farinha de mandioca que nós ainda usamos hoje é bem diferente do que os indígenas usavam, pois era caracterizado pelo primitivismo de sua elaboração.
        
Por exemplo, os povos pré-cabralinos não tinham o ralador, ou catitiu, tendo em vista que não conheciam o ferro, beneficiado através de técnicas metalúrgicas. Os nativos pegavam a mandioca, colocavam dentro d’ água para pubar, depois quando a mandioca estava amolecida eles passavam em uma arupemba, depois colocavam para secar e espremiam aquela massa em um tipiti, pois também não tinham a prensa.
        
Duas inovações tecnológicas os colonizadores portugueses introduziram no processo de produção de farinha. A primeira foi o ralador e o outro foi a prensa. Desenvolveram a prensa para secar a massa da mandioca, tendo em vista que necessitavam de máquina que compactasse de forma mais intensa a manipueira para fazer escorrer todo, ou quase todo, o ácido cianídrico contido na massa de mandioca ralada no catitu.

Rita de Cássia Rocha (1) – Discente do Curso de Licenciatura em Geografia do Campus Central da UERN.

José Romero Araújo Cardoso (2) - Geógrafo (UFPB). Escritor. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UERN). Membro do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e da Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM)

 Enviado pelo professor, escritor, pesquisador do cangaço e gonzaguiano José Romero de Araújo Cardoso

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SABINO CANGACEIRO: QUEM FOI O HOMEM QUE ATACOU CAJAZEIRAS

Por Cajazeiras de Amor

Sabino Gomes de Góis, alusivamente conhecido com “Sabino das Abóboras” nasceu na Fazenda Abóbora, localizada na zona rural do município de Serra Talhada/PE, próximo a fronteira com a Paraíba pertencente ao respeitado coronel Marçal Florentino Diniz pai de Marcolino Pereira Diniz. No local eram criadas grandes quantidades de cabeças de gado, havia vastas plantações de algodão, engenho de rapadura e se produziam muitas outras coisas que geravam recursos. Também existem dois riachos, denominados Abóbora e da Lage, que abastecem de forma positiva a gleba.

Sabino era filho da união não oficial entre o coronel Marçal Florentino Diniz e uma cozinheira da propriedade. Consta que ele trabalhou primeiramente como tangedor de gado, o que certamente lhe valeu um bom conhecimento geográfico da região. Valente, Sabino foi designado comissário (uma espécie de representante da lei) na circunvizinhança da fazenda Abóbora.

Para alguns estudiosos do cangaço teria sido Sabino que coordenou a vinda do debilitado Lampião para ser tratado pelos médicos José Lúcio Cordeiro de Lima e Severino Diniz. E que amizade entre o “Lampião” e o filho bastardo de Maçal Diniz, teria nascida na Fazenda Abóbora e se consolidado a ponto deste último se juntar ao “Rei do Cangaço” e seu bando, em uma posição de destaque, no famoso ataque de cinco dias ao Rio Grande do Norte, ocorrido em junho de 1927. Asseguram também que a inserção de Sabino no cangaço se deu em razão do assassinato de um primo legitimo seu de nome Josino Paulo surdo-mudo, morto por Clementino Quelé – conhecido por tamanduá vermelho, nas pilhérias do cangaço.

Entre 1921 e 1922, acompanhou seu meio irmão Marcolino para Cajazeiras. Marcolino Pereira Diniz desfrutava de muito prestígio político. Era presidente de clube social, dono de uma casa comercial e do jornal “O Rebate”. Tinha franca convivência com a elite cajazeirense. Sabino por sua vez era guarda costas de Marcolino e andava ostensivamente armado. Nesta época Sabino passou a realizar nas horas vagas, com um pequeno grupo de homens, pilhagens nas propriedades da região.

Foi através do Cel. Marcolino, que Sabino trouxe para residir na cidade sua mãe Maria Paula – carinhosamente chamada pelas pessoas de Vó e suas quatros filhas: Maria, Geni, Alaíde – Nazinha e Maria de Lourdes – Delouza.

Poucos cangaceiros foram tão cultivados, fora o chefe Lampião, do que Sabino Gomes, cuja presença no cangaço a cultura popular se encarregou de perpetuar, a exemplo da trova divulgada pelas banda do sertão, a qual dizia: “lá vem Sabino mais Lampião, Chapéu quebrado, fuzil na mão”.



https://coisasdecajazeiras.com.br/sabino-cangaceiro-quem-foi-o-homem-que-atacou-cajazeiras/

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INVASÃO E RESISTÊNCIA - OS 90 ANOS DA DERROTA DE LAMPIÃO NO CONFRONTO COM O POVO DE MOSSORÓ –"FRUSTRAÇÃO EM APODI E ATAQUE A GOVERNADOR DIX-SEPT ROSADO"- PARTE VI

Por José de Paiva Rebouças

Concomitante à prisão do coronel Antônio Gurgel, o bando se dividiu em duas facções para correr a região. Uma delas, chefiada por Massilon, foi a Apodi para nova tentativa  de saque, mas dessa vez a história foi diferente. 

Coronel Antônio Gurgel do Amaral - Fonte da imagem: http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2012/10/os-misterios-do-ataque-de-lampiao_24.html

O bando nem entrou na cidade. O tenente Juventino Cabral montou uma força para a defesa do lugar. Ao perceber os bandidos, policiais e paisanos dispararam uma violenta sequência de tiros. Massilon ficou em desatino e não teve como prosseguir a emboscada. Voltou desapontado com a incursão desastrosa.

Massilon, Lampião e Sabino Gomes - Fonte da imagem: http://blogdocarlossantos.com.br/a-resistencia-de-mossoro-ao-bando-de-lampiao/

A segunda facção tinha duas colunas. A primeira com Jararaca e a segunda. mais atrasada, com Lampião. Ao todo, cerca de 40 homens, além dos reféns. Seguiam em direção ao povoado de São Sebastião.

José Leite de Santana o cangaceiro Jararaca - Fonte da imagem:  
https://br.pinterest.com/pin/483925922444503576/

Passaram em Riacho Preto. Tabuleiro Grande, Ramadinha e Gangorrinha. No sítio Carnaubinha, chegaram à casa de Manoel Pregmácio, parada obrigatória para viajantes e comboios. 

Encontraram um carregamento pertencente a Manoel Alves de Medeiros, desafeto de Sabino. A carga foi queimada. Os bandidos dançaram e beberam aguardente ao redor do fogo.

A estação em 2002. Do livro Lampião e a Maria Fumaça, de A. A. Araújo e L .R. Bonfim - http://www.estacoesferroviarias.com.br/rgn/dixsept.htm

Entraram em São Sebastião por volta de onze horas da noite, sem dificuldade Na estação ferroviária, os funcionários se mantinha apostos conforme combinado com João Câmara poucas horas antes.

Aristides de Freitas ligou para o coronel Vicente Sabóia, superintendente da estrada de ferro em Mossoró, e avisou do ataque. Depois fugiu em um trole de ferro sob fogo dos bandidos. 

Deficiente físico, Manoel Pereira não conseguiu escapar, mas foi poupado pelos cangaceiros. De acordo com Sérgio Dantas, Vicente Sabóia retornou o telegrama querendo mais detalhes. Um cangaceiro atendeu com ameças: 

"Vocês vão ver o estrago que nós vamos fazer em Mossoró", teria dito.

Embriagados, os homens não pouparam nem os casebres. Invadiram e depredaram tudo. Saquearam os comércios  de José Ludgero Costa, João de Freitas Oliveira. Adauto Dias Fernandes e Eleutério Mendes. Puseram fogo em um automóvel e em um caminhão estacionados próximos à estrada de ferro.

A destruição só parou quando Massilon se juntou ao grupo. Reclamou com Jararaca e os dois se desentenderam. Coube a Lampião acalmar os ânimos. Partiram em seguida, fazendo parada no sítio Cigana, de Francisco Chagas Lopes. Virgolino mandou um grupo na frente para saber nas redondezas se tinha notícia de alguma volante. Depois seguiu para Passagem de Oiticica, onde iria acampar.

Lampião. Foto pouca usada pelos escritores - http://www.jeansouza.com.br/nordeste/em-4-de-junho-de-1898-nascia-virgulino-ferreira-da-silva-o-cangaceiro-lampiao/

O FIM DA FESTA EM MOSSORÓ

Quando Vicente Sabóia recebeu o aviso do ataque a São Sebastião, o povo de Mossoró estava na residência de Humberto de Aragão Mendes comemorando a vitória do Humaitá Foor-Ball Clube sobre o Ipiranga.

Residência do empresário Humberto de Aragão Mendes - Fonte da foto: https://www.youtube.com/watch?v=7hlk2kvJ_oQ

Ao receberem a notícia, os moradores entraram em pânico. Alguém ponderou que deveria ser boato de gente do Ipiranga para acabar com a festa. Ninguém deu ouvidos.

Os remanescentes do escotismo na cidade de Mossoró, fundaram a 14 de outubro de 1919, no Sítio Cantos, na residência do dr. Pedro Ciarline, pelas 19 horas, à luz de lamparinas, o Humaitá Foor-Ball Clube. - Fonte: futebol em família, de Olismar Medeiros Lima - http://jotamaria-futebolmossoro.blogspot.com.br/2012/04/humaita-mossoro.html

Os sinos das igrejas começaram a tocar e para ampliar o aviso, foram acionadas as sirenas da usina de força e luz e de outras firmas comerciais.

Muitos se dirigiram à sede da Intendência para saber mais informações. Na mesma noite começou a retirada da cidade. A ordem, segundo Sérgio Dantas era fugir. 

Pesquisadores Aderbal Nogueira, Manoel Severo e Sérgio Dantas - Fonte da imagem: http://cariricangaco.blogspot.com.br

AS PRIMEIRAS HORAS DO DIA 13 DE JUNHO DE 1927

Por volta das cinco horas da manhã, Jararaca, Moreno, Colchete e meia dúzia de cangaceiros chegaram em Passagem de Pedras de Oiticica, visivelmente embriagados.  

http://www.revistaencontro.com.br

Sem sinal de volantes, saquearam todas as casas. De lá, foram até o sítio Bom Jesus, hoje bairro de Mossoró, para ver se tinha residência. Nem sinal.

No retorno, prenderam Amadeu Lopes e o prestador de serviços de dedetização Luiz Joaquim Siqueira, o Formiga que seguiam a cavalo para Passagem de  Oiticica. 

No sítio Cigana, o bando comandado por Lampião assaltou Francisco Rosendo. Mas à frente, fez José da Silveira de refém por três contos de réis.

Assaltaram a choupana de Cícero Secundino e tomaram dinheiro de Pedro Lopes e José Flor. Em Ipueira, invadiram a mercearia de Antônio Vasco, no sítio Canudos, e sequestraram Anacleto de Oliveira Freitas por 500 mil réis. O refém mandou recado ao pai que lhe alcançou pouco adiante com o dinheiro do resgate.

Parte do bando se afastou do grupo maior e seguiu até outros lugares próximos. Em Lagoa de Paus, entraram na casa de João Abdias. Adiante, prenderam os sertanejos Joaquim Germano e Júlio Soares por um conto de réis cada.

Azarias Januário, da fazenda Picada, foi preso por quinhentos mil réis. O agricultor José Geraldo de Oliveira e seu filho também foram presos. Os sertanejos Adolfo Guilherme, Sancho Amaro e Belarmino de Morais foram levados para servirem de escudo humano se houvesse necessidade.

Por volta de sete e meia da manhã, o bando se reunia em Passagem de Oiticica.

Continuaremos amanhã com o título:
"ESTRATÉGIA PARA O ATAQUE"

Fonte: Jornal De Fato
Revista: Contexto Especial
Nº: 8
Páginas: 24 E 25
Ano: 6
Cidade: Mossoró-RN
Editor: José de Paiva Rebouças
E-mail: josedepaivareboucas@gmail.com
Ilustrado por: José Mendes Pereira

http://blogdomendesemendes.blogspot.com